sexta-feira, 20 de novembro de 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Dois lançamentos com Sergio Faraco pela L&PM

DIÁLOGOS SEM FRONTEIRA
CORRESPONDÊNCIA: MARIO ARREGUI E SERGIO FARACO
TITULO ORIGINAL: Mario Arregui y Sergio Faraco: Correspondencia
L&PM
Dois artesãos da palavra
Mario Arregui, contista uruguaio; Sergio Faraco, contista brasileiro, do Sul do país. Dois ficcionistas-artesãos, escravos da palavra exata, tradutores e proprietários rurais unidos e separados pelo Prata e pela cultura platense, de idades distintas mas nos quais a amizade surgiu com igual força. Em 1981, após ter deparado com alguns livros de Arregui, Faraco decidiu-se a traduzir e organizar no Brasil uma compilação dos contos do autor. O contato primeiramente feito com fins profissionais evoluiu para uma troca assídua de cartas escritas em espanhol que incluem recomendações de livros, impressões sobre o ofício e a carreira de ficcionista, consultas sobre as melhores opções de tradução de um termo, discussões sobre os rumos da política mundial, sobre as crises e as ditaduras características da América Latina na segunda metade do século XX e comentários sobre a família e o dia a dia – a vida, em suma. Tal insuspeita amizade pegou “Dom Arregui”, como carinhosamente o chamava Sergio Faraco, em idade já avançada. A mesma durou de 1981 a 1985, quando Arregui faleceu, de causas naturais. Durante esses anos, ambos se viram pessoalmente uma única vez.
O presente livro traz as cartas trocadas durante esses pouco mais de quatro anos de correspondência e faz o retrato do surgimento e do crescimento dessa afetuosa amizade – “monumento anônimo, maravilhoso, em permanente construção, feito de ar, de trabalho, de nostalgia e de sonho”, segundo Martín Arregui, filho do autor uruguaio. Testemunho do convívio de duas mentes criativas, este é um importante documento sobre dois grandes nomes das letras latino-americanas.

A LONGA VIAGEM DE PRAZER
JUAN JOSÉ MOROSOLI
Tradução de SERGIO FARACO
TÍTULO ORIGINAL: El largo viajo de placer
Coleção L&PM Pocket
Prefácio de Léa Masina; Prólogo de Heber Raviolo; Posfácio de Pablo Rocca
O homem, o campo e a solidão
"Viventes de um tempo morto, ou condenado a morrer, é o que poderíamos dizer dos seres morosolianos. Viventes: seres anônimos, sem outra credencial para apresentar senão a própria vida, essencialmente solitária, pois a solidão é a outra característica, o outro grande tema que ocupa a obra de Morosoli, intimamente relacionado não só com o da extinção, com o da marginalização histórica, mas também com algo muito mais especificamente uruguaio. Partindo de seus entes solitários, enraizados como plantas, de seus gaudérios sem destino, esses contos se projetam de sua base realista para um plano poético e simbólico que lhes outorga perenidade e relevância, convertendo-os numa ampla metáfora de nossos campos, nossos pueblos, nossos homens. É o deserto transferido aos homens, a solidão de nossa terra encarnando neles."
Heber Raviolo – Editor, crítico literário e ensaísta uruguaio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Marlene

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
Todas as emoções que tive na vida, menos ou mais intensas, deixaram suas marcas em minha têmpera. Uma delas, contudo, destacou-se das demais, tanto pela intensidade como por ser de um tipo que te leva a pensar que, entre os humanos, tiveste a glória de ser um dos escolhidos. Em 1964, num teatro de Moscou, ouvi Marlene Dietrich cantar.
Eu já havia assistido ao filme O Anjo Azul, realizado por Josef von Sternberg em 1930, que projetou Marlene no universo hollywoodiano, e trazia viva na lembrança a imagem da bela, provocante, perversa cantora de cabaré, Lola-Lola, que seduz e leva à loucura e à morte o infeliz professor de literatura inglesa, Immanuel Rath, representado na tela pelo ator alemão Emil Jannings. Fui ao teatro para ver um mito, o da femme fatale. E não é que vi? Aos 63 anos, conservava Marlene a formosura do rosto, com seu ríctus de devassidão e decadência, as linhas sensualíssimas do corpo, e o vestido de plumas brancas descobria as prodigiosas pernas que, nos anos 30, foram consideradas as mais perfeitas do planeta. Fazia-se acompanhar tão-só de um violão. Sua voz grave arrebatava a plateia, como se estivéssemos todos, ela e nós, num boudoir de suave e licencioso calor. Entre outras canções, cantou "Where Have All the Flowers Gone?" e "Falling in Love Again" (de O Anjo Azul), e quando cantou aquela que seria a derradeira, a clássica Lili Marleen, foi ovacionada de pé e teve de voltar duas vezes à ribalta para repeti-la. Sobre ela escrevera Hemingway: “Se nada tivesse além da voz, só com esta despedaçaria nosso coração”. E era pouco. Ela te roubava a alma.
Um biógrafo de Marlene conta que, numa das apresentações de Moscou, “houve 45 minutos de bis diante de uma plateia de 1.350 pessoas”. E Marlene teria dito, aos últimos aplausos: “Devo dizer-lhes que os amo há muito tempo. A razão por que os amo é que vocês não têm nenhuma emoção morna. Ou são muito tristes ou muito felizes. Sinto-me orgulhosa em poder dizer que eu mesma tenho uma alma russa”. Conta também que Marlene se enamorara da autobiografia do escritor Kostantin Paustovski. Ao saber que ele se encontrava no teatro para ouvi-la, comoveu-se, e não sabendo como traduzir seu sentimento, ajoelhou-se diante dele. E Paustovski chorou. Eu tinha escolhido outro dia para vê-la e não testemunhei essa cena tão tocante. Seria pedir demais aos fados.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Faraco entre os melhores da América Latina

"Magestic Hotel" foi o conto escolhido por Flávio Moreira da Costa para esta antologia dos melhores da América Latina. O reconhecido antologista esteve em Porto Alegre, na Feira do Livro - contou também com a presença de Faraco -, para autografar o livro que resgata contos da literatura latino-americana desde o período colonial até o século XXI, de autores conhecidos vivos e até aqueles que já foram esquecidos, mas cujo trabalho tem grande valor.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Antologia em Portugal

O conto "A sagração da noite escura", de Sergio Faraco, integra uma coletânea, recém lançada em Portugal, de contos portugueses e brasileiros cuja paisagem é um rio. Além de Faraco, participam outros seis autores gaúchos: Aldyr Garcia Schlee, Carlos Nejar, Flávio Moreira da Costa, Jane Tutikian, Moacyr Scliar e Monique Revillion.
A antologia foi organizada pelos portugueses Victor Oliveira Mateus e Celina Veiga de Oliveira e lançada pelo Editorial Tágide, de Oeiras (Lisboa).

sábado, 10 de outubro de 2009

Os Dez Mandamentos de Quiroga ainda geram debate

Matéria publicada no Jornal do Brasil de hoje.
Raimundo Carrero
RIO - Depois que Moisés desceu do Monte Sinai com os Dez Mandamentos nas tábuas e nas mãos, não faltou mais quem ditasse regras à vida e à arte. Horácio chegou a estabelecer as leis fixas – assim mesmo, fixas – para a poesia. Nem precisa lembrar Aristóteles que criou imensos conceitos sobre a arte de escrever, embora a história garanta que ele não escreveu nada, fez apenas breves anotações para um curso de teatro. O livro, porém – A poética – é amado, adorado, consultado. Todo bom – ou mau – escritor conhece-o. É leitura obrigatória. Sempre.
O escritor húngaro Stephen Vizinczey publicou também um decálogo severo – discutido no meu livro Os segredos da ficção, em que há pelo menos uma exortação determinante no sétimo artigo: “Não passarás um só dia sem ler algo grande”. E conclama o escritor a não ter empregos nem vícios, com uma vida inteiramente dedicada à narrativa. Cortázar reduziu seu “decálogo” a apenas dois artigos definitivos: 1) “O conto é uma espécie de luta de box que termina por nocaute no primeiro round”; 2) “O romance é uma luta longa que termina no último round por pontos”. Mário de Andrade ironizou: “Todo conto é aquilo que chamo de conto e crônica é tudo aquilo que chamo de crônica”. Para José Castello, que reclama liberdade absoluta do criador, sem amarras nem leis, mesmo subjetivas, “um escritor não se submete a regras. Por que descartar adjetivos e privilegiar os substantivos? Isso pode ser verdadeiro em um relato, mas pode ser inteiramente falso em outro”. Tem razão. Não existem leis absolutas na criação.
Agora o debate cresceu. Agigantou-se. Essa declaração de Castello, por exemplo, está no livro Decálogo do perfeito contista, organizado por Sergio Faraco e Vera Moreira para a L&PM. Mais adiante, Aldyr Garcia Schlee afirma que o decálogo de Horacio Quiroga tem uma rigidez cretina, ao contrário do deboche de Los trues del perfecto cuentista e da ironia de El manual del perfecto cuentista, também escritos pelo contista famoso. Nem por isso o Uruguai deixou de tomar um susto. Quiroga passou a ditar leis e a escrever manuais e decálogos para os ficcionistas, a partir da década de 20, no século passado. Regras objetivas para uma vida desregrada. Apesar de combatido e, em muitos casos, insultado – como ocorre ainda hoje em vários níveis, invejas e mentiras ocupam o mesmo corredor – o Decálogo do perfeito contista, passado quase um século, é examinado e debatido; riscado e guardado. Assim acontece com o volume agora publicado com um longo e saudável debate, reunindo 20 escritores brasileiros das mais diversas origens.
Quiroga, porém, não quer ser apenas exato e enxuto: quer ser perfeito. Talvez por isso mesmo não seja muito simpático aos comentadores. Quase todos lhe fazem ressalvas, embora a mim me pareça que os decálogos não são leis nem regras, são indicadores de caminho. Até porque, pela própria natureza da criação, o escritor inventa seu próprio decálogo no dia a dia. Por isso acredito numa só lei: escreva sempre, escreva todo dia, escreva agora. Se possível abandone todas as profissões e trabalhe, trabalhe, trabalhe. Osman Lins dizia que um ficcionista não deve ser sequer colunista literário para não perder tempo. Mas não é o que aconselha Jaime Prado Gouvêa: “Fé cega e ardor não costumam gerar coisas boas. E esse amor desbragado costuma acabar mal”. Mas escreva, sempre e muito. Publicação é outra coisa. E leia, leia muito. Prosador lê poesia; poeta lê prosa.
O terceiro artigo do Decálogo do perfeito contista, aquele que se refere à imitação, e que poderia ser o mais polêmico, chega a uma quase unanimidade. Uma quase unanimidade surpreendente. Imitar? Um escritor precisa imitar? Com cautela. O “nunca imite ninguém”, proclamado por Miguel Sanches Neto, tem uma resposta imediata de Cíntia Moscovich: “Como pode criar quem não imita?”. Moacyr Scliar, o mais objetivo dos comentadores, não descarta a ambiguidade queroguiana, a que chama de malandragem: “No terceiro conselho Quiroga desce do Sinai e chega ao território da malandragem. Não o faz sem uma advertência moral: 'Resiste quanto possível à imitação'. Depois, porém, cai na realidade: 'Imita se o impulso for muito forte'”.
É preciso não esquecer que Ismail Kadaré, o festejado autor de Abril despedaçado, afirma que o primeiro livro que escreveu foi Macbeth, de Shakespeare. Isto é, aos 9 anos de idade ele reescreveu todo o clássico à mão, para compreendê-lo melhor. Há os poetas que decoram poemas inteiros e não se livram deles. Os prosadores são diferentes: segundo o decálogo de Vizinczey, não sabem discutir sequer uma cena. Escrevem, escrevem bem, mas são perdoados “porque não sabem o que fazem”.
Aldyr prefere apostar no campo pessoal; nas informações dolorosas sobre a vida de Quiroga – e que vida, meu Deus! – revela que “o escritor tinha matado acidentalmente um amigo, tinha fracassado na tentativa de plantar algodão no Chaco, tinha posto fora uma herança e, voltando a Buenos Aires, conseguira com Leopoldo Lugones a nomeação para professor de castelhano e literatura na escola normal. Ele mesmo reconheceria mais tarde sua ignorância na arte de ministrar aulas”. Vai mais além: “Em 1937, Quiroga havia sido abandonado pelos filhos e pela segunda mulher, Maria Elena Bravo; amargava seríssimas dificuldades financeiras e, estando gravemente doente, interna-se num hospital e se mata, tomando cianureto”. Bem antes, muito bem antes, Aldyr informa que o escritor uruguaio viveu nas proximidades do Rio Paraná, em San Ignácio, acrescentando essa informação cruel: “Desde o rio soprava um vento frio. Até que sua mulher se suicidou. E ele teve de voltar a Buenos Aires com dois filhos pequenos”.
Está perdoado de todos os pecados.
Pecados que devem ser estranhos, estranhíssimos – como é da natureza de todo pecado – ao senhor José H. Dacanal, que publica artigos reunidos num livro pela editora Soles, também de Porto Alegre, com título provocativo: Oficinas literárias: fraude ou negócio sério?. Parece um homem polêmico, mas que parece atirar num endereço certo. Teria fuzilado Horácio Quiroga em plena praça da capital gaúcha. Não suportaria ler um único artigo. Não suportaria sequer a exposição do volume nas livrarias. Na verdade, ele enumera quatro tipos de oficinas – e cada uma parece se destinar a uma das leis de Quiroga – para qualificá-las ou desqualificá-las. E surge, então, a mais verdadeira ironia: ele pode qualificar o trabalho dos escritores, mas não admite que eles pensem. Ou falem. Ou estudem. As oficinas não prometem milagres: elas funcionam como auxiliar no trabalho da criação. É só isso. Não importa o método.
E vejam que Porto Alegre, de onde escreve Dacanal, é a capital das oficinas literárias. E boas. Boas, não, ótimas. É preciso acrescentar, todavia, que as oficinas não são laboratórios de feiticeiros, nem de bruxos, nem de alquimistas. São lugares onde a literatura é amada. Às vezes enfrenta amantes agressivos, do tipo Quiroga ou Dacanal. E, por isso mesmo, é ainda mais discutida. Mais examinada. Se submete a lindos strip-teases todas as noites. E cada dia acorda mais linda.