Oportunidade rara de encontrar com Sergio Faraco
Com uma extensa obra de ficção, Faraco é indicado sempre em lugar de destaque entre os grandes contistas brasileiros pela crítica especializada. Avesso a participação em eventos públicos, hoje o escritor autografa três livros pela L&PM, às 18:30h, na Praça de Autógrafos da Feira do Livro.
Leia perfil exlusivo de Faraco para Povo do Diário e abaixo um texto de Renato Lemos Dalto sobre o autor.
(...) Mas Faraco diminuiu o ritmo, sim, deliberadamente. Tem dito e redito, nas entrevistas que ainda concede, que desde meados dos anos 90 sente uma descontinuação no seu trabalho ficcional e que talvez nem tente mais continuar escrevendo contos. Não se pense, no entanto, que esteja jogando a toalha. Na verdade, ele hoje se permite outras fontes de prazer além da escrita, que dominou com o talento de um virtuose. A família (foto à direita) é o centro das suas atenções, com a esposa Cybele e os filhos Bianca, Angélica e Bruno. O pequeno Gu, apelido do neto Vinicius, é quem mais lhe chama, e exige, claro, a atenção – Faraco se encanta com as tiradas inteligentes do lindo piá de três aninhos. A casa onde mora, na Zona Sul de Porto Alegre, também o rouba da atividade literária, pois o escritor se transmuta em jardineiro, marceneiro, pintor, eletricista... Aos
71 anos, goza de saúde e disposição invejáveis para inúmeras tarefas pesadas que executa no jardim e dentro de casa, como um forro novo na sala de visitas. Essa empreitada rendeu até uma crônica para Zero Hora, “O forro eterno”, tamanha a dimensão da obra. Tão meticuloso e perfeccionista nos afaz

eres domésticos quanto na escrita, Faraco também é cauteloso. Cerca-se do máximo de segurança possível ao se pendurar no flamboyant para podar os galhos ou subir no telhado para trocar uma telha. Por vezes, no entanto, pequenos acidentes acontecem, e o escritor aparece com um braço lanhado, um roxo nas canelas. Acidentes só nunca aconteceram mesmo no seu texto e, deste, afortunadamente temos uma obra inteira para ler e reler, sempre com uma nova emoção. (...)
O escritor do inverno de nossas almas
(...) — Não parei de escrever em 95, mas em 90, com o “Conto do Inverno”. E durante nove anos, não mais pude escrever contos. Quando publiquei os “Contos completos”, disse comigo: “Já que não posso fazer mais nada, vou me despedir”. Até 99, continuei sem escrever e publicar histórias novas. Tentava, mas o resultado não me satisfazia. De resto, as muitas traduções que fazia cobravam seu preço. Traduzi mais de 25 livros. E eu tinha dificuldade para traduzir os tropeços dos outros. Quando via um problema, tentava reescrever com o estilo do autor. Digamos que isso me transformava, porque tinha de assumir o rosto do outro. Era como se eu fosse um trompetista obrigado a tocar trombone, sax e outros instrumentos, e viesse perdendo, por isso mesmo, a embocadura do trompete.
Quando “Madrugada” veio a público, em 99, era um prenúncio de que voltaria a reunir seus contos em mais um livro. É assim que, na primavera de 2000, lança “Rondas de escárnio e loucura”, com 11 contos, e reacende, para os leitores, a densidade emocional de sua prosa. É como se o canto do urutau, solitário, se anunciasse de novo na noite primaveril. A fonte não tinha secado. E a água era boa e límpida. (...)