segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Revista "Aplauso" de dezembro com Faraco na capa


Em entrevista concedida ao jornalista Eduardo Lanius, em sua casa, na zona Sul de Porto Alegre, Sergio Faraco discorreu sobre diversos aspectos da sua literatura, da sua vida cotidiana e dos seus projetos. A revista está nas bancas e traz um conto inédito do escritor: Tributo, que também foi publicado neste mês de dezembro no "Rascunho", jornal de literatura de Curitiba/PR (veja abaixo).
Fotos de Tânia Meinerz
A matéria completa da "Aplauso" e o conto Tributo estão no site da L&PM (clique aqui pra ler).






"Rascunho" traz conto inédito de Faraco

O jornal de literatura "Rascunho", de Curitiba/PR, traz na edição deste mês de dezembro o conto inédito de Faraco: Tributo.



Ilustração de Marco Jacobsen.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Conto inédito de Faraco no blog de Charles Kiefer e no SLMG

"Um mundo melhor", de Faraco, dedicado a Jacob Klintowitz, está no blog de Charles Kiefer (clique aqui pra ler) e no Suplemento Literário de Minas Gerais (ao lado, título da página e ilustração).

Prêmio Joaquim Felizardo homenageia Sergio Faraco

Criado pela Secretaria Municipal da Cultura (SMC), o Prêmio Joaquim Felizardo homenageia em diversas áreas os artistas,  intelectuais, iniciativas, mídia e patrocinadores de destacada contribuição para a cultura da cidade. O escritor Sergio Faraco é o homenageado na categoria Literatura. A cerimônia de premiação tem data marcada para o dia 13 de abril de 2010, às 20h30, no Teatro Renascença. Clique aqui para ler a notícia na íntegra, do site da Prefeitura de Porto Alegre.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

"Diálogos sem fronteira" no jornal Zero Hora


Clique aqui para ler na íntegra a coluna do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil no Segundo Caderno de hoje, no jornal Zero Hora.

"O pão e a esfinge" no jornal O Globo


Clique aqui para ler na íntegra a resenha do escritor Fabrício Carpinejar no suplemento literário Prosa & Verso de hoje, no jornal O Globo.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crônica "No tempo do mil-réis" em revista de Alegrete

Publicada em Alegrete, pela Sociedade de Engenharia e Arquitetura de Alegrete - SEAA - a revista Cadernos temáticos, que defende o patrimônio cultural da cidade. A publicação, de excelente qualidade gráfica, traz muitas fotos de antigas edificações de Alegrete que foram depredadas ou sofreram alterações que as descaracterizaram, e textos de Jorge Augusto Moojen, Sergio Faraco, Briane Panitz Bicca, Pedro Mangelôs, J. N. B. Curtis, Paulo Houayek, Maurício Goldemberg, Edson Paniagua, José Carlos Queiroga, Alícia Cardoso, Frinéia Zamin, Günter Weimer, Moacyr Flores, Hélio Ricciardi, Antônio Saint Pastous, Virgínia do Rosário, Isabel Bicca de Queiroga, Ana Lúcia Meira e Carlos Alberto Moojen.

sábado, 21 de novembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Dois lançamentos com Sergio Faraco pela L&PM

DIÁLOGOS SEM FRONTEIRA
CORRESPONDÊNCIA: MARIO ARREGUI E SERGIO FARACO
TITULO ORIGINAL: Mario Arregui y Sergio Faraco: Correspondencia
L&PM
Dois artesãos da palavra
Mario Arregui, contista uruguaio; Sergio Faraco, contista brasileiro, do Sul do país. Dois ficcionistas-artesãos, escravos da palavra exata, tradutores e proprietários rurais unidos e separados pelo Prata e pela cultura platense, de idades distintas mas nos quais a amizade surgiu com igual força. Em 1981, após ter deparado com alguns livros de Arregui, Faraco decidiu-se a traduzir e organizar no Brasil uma compilação dos contos do autor. O contato primeiramente feito com fins profissionais evoluiu para uma troca assídua de cartas escritas em espanhol que incluem recomendações de livros, impressões sobre o ofício e a carreira de ficcionista, consultas sobre as melhores opções de tradução de um termo, discussões sobre os rumos da política mundial, sobre as crises e as ditaduras características da América Latina na segunda metade do século XX e comentários sobre a família e o dia a dia – a vida, em suma. Tal insuspeita amizade pegou “Dom Arregui”, como carinhosamente o chamava Sergio Faraco, em idade já avançada. A mesma durou de 1981 a 1985, quando Arregui faleceu, de causas naturais. Durante esses anos, ambos se viram pessoalmente uma única vez.
O presente livro traz as cartas trocadas durante esses pouco mais de quatro anos de correspondência e faz o retrato do surgimento e do crescimento dessa afetuosa amizade – “monumento anônimo, maravilhoso, em permanente construção, feito de ar, de trabalho, de nostalgia e de sonho”, segundo Martín Arregui, filho do autor uruguaio. Testemunho do convívio de duas mentes criativas, este é um importante documento sobre dois grandes nomes das letras latino-americanas.

A LONGA VIAGEM DE PRAZER
JUAN JOSÉ MOROSOLI
Tradução de SERGIO FARACO
TÍTULO ORIGINAL: El largo viajo de placer
Coleção L&PM Pocket
Prefácio de Léa Masina; Prólogo de Heber Raviolo; Posfácio de Pablo Rocca
O homem, o campo e a solidão
"Viventes de um tempo morto, ou condenado a morrer, é o que poderíamos dizer dos seres morosolianos. Viventes: seres anônimos, sem outra credencial para apresentar senão a própria vida, essencialmente solitária, pois a solidão é a outra característica, o outro grande tema que ocupa a obra de Morosoli, intimamente relacionado não só com o da extinção, com o da marginalização histórica, mas também com algo muito mais especificamente uruguaio. Partindo de seus entes solitários, enraizados como plantas, de seus gaudérios sem destino, esses contos se projetam de sua base realista para um plano poético e simbólico que lhes outorga perenidade e relevância, convertendo-os numa ampla metáfora de nossos campos, nossos pueblos, nossos homens. É o deserto transferido aos homens, a solidão de nossa terra encarnando neles."
Heber Raviolo – Editor, crítico literário e ensaísta uruguaio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Marlene

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
Todas as emoções que tive na vida, menos ou mais intensas, deixaram suas marcas em minha têmpera. Uma delas, contudo, destacou-se das demais, tanto pela intensidade como por ser de um tipo que te leva a pensar que, entre os humanos, tiveste a glória de ser um dos escolhidos. Em 1964, num teatro de Moscou, ouvi Marlene Dietrich cantar.
Eu já havia assistido ao filme O Anjo Azul, realizado por Josef von Sternberg em 1930, que projetou Marlene no universo hollywoodiano, e trazia viva na lembrança a imagem da bela, provocante, perversa cantora de cabaré, Lola-Lola, que seduz e leva à loucura e à morte o infeliz professor de literatura inglesa, Immanuel Rath, representado na tela pelo ator alemão Emil Jannings. Fui ao teatro para ver um mito, o da femme fatale. E não é que vi? Aos 63 anos, conservava Marlene a formosura do rosto, com seu ríctus de devassidão e decadência, as linhas sensualíssimas do corpo, e o vestido de plumas brancas descobria as prodigiosas pernas que, nos anos 30, foram consideradas as mais perfeitas do planeta. Fazia-se acompanhar tão-só de um violão. Sua voz grave arrebatava a plateia, como se estivéssemos todos, ela e nós, num boudoir de suave e licencioso calor. Entre outras canções, cantou "Where Have All the Flowers Gone?" e "Falling in Love Again" (de O Anjo Azul), e quando cantou aquela que seria a derradeira, a clássica Lili Marleen, foi ovacionada de pé e teve de voltar duas vezes à ribalta para repeti-la. Sobre ela escrevera Hemingway: “Se nada tivesse além da voz, só com esta despedaçaria nosso coração”. E era pouco. Ela te roubava a alma.
Um biógrafo de Marlene conta que, numa das apresentações de Moscou, “houve 45 minutos de bis diante de uma plateia de 1.350 pessoas”. E Marlene teria dito, aos últimos aplausos: “Devo dizer-lhes que os amo há muito tempo. A razão por que os amo é que vocês não têm nenhuma emoção morna. Ou são muito tristes ou muito felizes. Sinto-me orgulhosa em poder dizer que eu mesma tenho uma alma russa”. Conta também que Marlene se enamorara da autobiografia do escritor Kostantin Paustovski. Ao saber que ele se encontrava no teatro para ouvi-la, comoveu-se, e não sabendo como traduzir seu sentimento, ajoelhou-se diante dele. E Paustovski chorou. Eu tinha escolhido outro dia para vê-la e não testemunhei essa cena tão tocante. Seria pedir demais aos fados.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Faraco entre os melhores da América Latina

"Magestic Hotel" foi o conto escolhido por Flávio Moreira da Costa para esta antologia dos melhores da América Latina. O reconhecido antologista esteve em Porto Alegre, na Feira do Livro - contou também com a presença de Faraco -, para autografar o livro que resgata contos da literatura latino-americana desde o período colonial até o século XXI, de autores conhecidos vivos e até aqueles que já foram esquecidos, mas cujo trabalho tem grande valor.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Antologia em Portugal

O conto "A sagração da noite escura", de Sergio Faraco, integra uma coletânea, recém lançada em Portugal, de contos portugueses e brasileiros cuja paisagem é um rio. Além de Faraco, participam outros seis autores gaúchos: Aldyr Garcia Schlee, Carlos Nejar, Flávio Moreira da Costa, Jane Tutikian, Moacyr Scliar e Monique Revillion.
A antologia foi organizada pelos portugueses Victor Oliveira Mateus e Celina Veiga de Oliveira e lançada pelo Editorial Tágide, de Oeiras (Lisboa).

sábado, 10 de outubro de 2009

Os Dez Mandamentos de Quiroga ainda geram debate

Matéria publicada no Jornal do Brasil de hoje.
Raimundo Carrero
RIO - Depois que Moisés desceu do Monte Sinai com os Dez Mandamentos nas tábuas e nas mãos, não faltou mais quem ditasse regras à vida e à arte. Horácio chegou a estabelecer as leis fixas – assim mesmo, fixas – para a poesia. Nem precisa lembrar Aristóteles que criou imensos conceitos sobre a arte de escrever, embora a história garanta que ele não escreveu nada, fez apenas breves anotações para um curso de teatro. O livro, porém – A poética – é amado, adorado, consultado. Todo bom – ou mau – escritor conhece-o. É leitura obrigatória. Sempre.
O escritor húngaro Stephen Vizinczey publicou também um decálogo severo – discutido no meu livro Os segredos da ficção, em que há pelo menos uma exortação determinante no sétimo artigo: “Não passarás um só dia sem ler algo grande”. E conclama o escritor a não ter empregos nem vícios, com uma vida inteiramente dedicada à narrativa. Cortázar reduziu seu “decálogo” a apenas dois artigos definitivos: 1) “O conto é uma espécie de luta de box que termina por nocaute no primeiro round”; 2) “O romance é uma luta longa que termina no último round por pontos”. Mário de Andrade ironizou: “Todo conto é aquilo que chamo de conto e crônica é tudo aquilo que chamo de crônica”. Para José Castello, que reclama liberdade absoluta do criador, sem amarras nem leis, mesmo subjetivas, “um escritor não se submete a regras. Por que descartar adjetivos e privilegiar os substantivos? Isso pode ser verdadeiro em um relato, mas pode ser inteiramente falso em outro”. Tem razão. Não existem leis absolutas na criação.
Agora o debate cresceu. Agigantou-se. Essa declaração de Castello, por exemplo, está no livro Decálogo do perfeito contista, organizado por Sergio Faraco e Vera Moreira para a L&PM. Mais adiante, Aldyr Garcia Schlee afirma que o decálogo de Horacio Quiroga tem uma rigidez cretina, ao contrário do deboche de Los trues del perfecto cuentista e da ironia de El manual del perfecto cuentista, também escritos pelo contista famoso. Nem por isso o Uruguai deixou de tomar um susto. Quiroga passou a ditar leis e a escrever manuais e decálogos para os ficcionistas, a partir da década de 20, no século passado. Regras objetivas para uma vida desregrada. Apesar de combatido e, em muitos casos, insultado – como ocorre ainda hoje em vários níveis, invejas e mentiras ocupam o mesmo corredor – o Decálogo do perfeito contista, passado quase um século, é examinado e debatido; riscado e guardado. Assim acontece com o volume agora publicado com um longo e saudável debate, reunindo 20 escritores brasileiros das mais diversas origens.
Quiroga, porém, não quer ser apenas exato e enxuto: quer ser perfeito. Talvez por isso mesmo não seja muito simpático aos comentadores. Quase todos lhe fazem ressalvas, embora a mim me pareça que os decálogos não são leis nem regras, são indicadores de caminho. Até porque, pela própria natureza da criação, o escritor inventa seu próprio decálogo no dia a dia. Por isso acredito numa só lei: escreva sempre, escreva todo dia, escreva agora. Se possível abandone todas as profissões e trabalhe, trabalhe, trabalhe. Osman Lins dizia que um ficcionista não deve ser sequer colunista literário para não perder tempo. Mas não é o que aconselha Jaime Prado Gouvêa: “Fé cega e ardor não costumam gerar coisas boas. E esse amor desbragado costuma acabar mal”. Mas escreva, sempre e muito. Publicação é outra coisa. E leia, leia muito. Prosador lê poesia; poeta lê prosa.
O terceiro artigo do Decálogo do perfeito contista, aquele que se refere à imitação, e que poderia ser o mais polêmico, chega a uma quase unanimidade. Uma quase unanimidade surpreendente. Imitar? Um escritor precisa imitar? Com cautela. O “nunca imite ninguém”, proclamado por Miguel Sanches Neto, tem uma resposta imediata de Cíntia Moscovich: “Como pode criar quem não imita?”. Moacyr Scliar, o mais objetivo dos comentadores, não descarta a ambiguidade queroguiana, a que chama de malandragem: “No terceiro conselho Quiroga desce do Sinai e chega ao território da malandragem. Não o faz sem uma advertência moral: 'Resiste quanto possível à imitação'. Depois, porém, cai na realidade: 'Imita se o impulso for muito forte'”.
É preciso não esquecer que Ismail Kadaré, o festejado autor de Abril despedaçado, afirma que o primeiro livro que escreveu foi Macbeth, de Shakespeare. Isto é, aos 9 anos de idade ele reescreveu todo o clássico à mão, para compreendê-lo melhor. Há os poetas que decoram poemas inteiros e não se livram deles. Os prosadores são diferentes: segundo o decálogo de Vizinczey, não sabem discutir sequer uma cena. Escrevem, escrevem bem, mas são perdoados “porque não sabem o que fazem”.
Aldyr prefere apostar no campo pessoal; nas informações dolorosas sobre a vida de Quiroga – e que vida, meu Deus! – revela que “o escritor tinha matado acidentalmente um amigo, tinha fracassado na tentativa de plantar algodão no Chaco, tinha posto fora uma herança e, voltando a Buenos Aires, conseguira com Leopoldo Lugones a nomeação para professor de castelhano e literatura na escola normal. Ele mesmo reconheceria mais tarde sua ignorância na arte de ministrar aulas”. Vai mais além: “Em 1937, Quiroga havia sido abandonado pelos filhos e pela segunda mulher, Maria Elena Bravo; amargava seríssimas dificuldades financeiras e, estando gravemente doente, interna-se num hospital e se mata, tomando cianureto”. Bem antes, muito bem antes, Aldyr informa que o escritor uruguaio viveu nas proximidades do Rio Paraná, em San Ignácio, acrescentando essa informação cruel: “Desde o rio soprava um vento frio. Até que sua mulher se suicidou. E ele teve de voltar a Buenos Aires com dois filhos pequenos”.
Está perdoado de todos os pecados.
Pecados que devem ser estranhos, estranhíssimos – como é da natureza de todo pecado – ao senhor José H. Dacanal, que publica artigos reunidos num livro pela editora Soles, também de Porto Alegre, com título provocativo: Oficinas literárias: fraude ou negócio sério?. Parece um homem polêmico, mas que parece atirar num endereço certo. Teria fuzilado Horácio Quiroga em plena praça da capital gaúcha. Não suportaria ler um único artigo. Não suportaria sequer a exposição do volume nas livrarias. Na verdade, ele enumera quatro tipos de oficinas – e cada uma parece se destinar a uma das leis de Quiroga – para qualificá-las ou desqualificá-las. E surge, então, a mais verdadeira ironia: ele pode qualificar o trabalho dos escritores, mas não admite que eles pensem. Ou falem. Ou estudem. As oficinas não prometem milagres: elas funcionam como auxiliar no trabalho da criação. É só isso. Não importa o método.
E vejam que Porto Alegre, de onde escreve Dacanal, é a capital das oficinas literárias. E boas. Boas, não, ótimas. É preciso acrescentar, todavia, que as oficinas não são laboratórios de feiticeiros, nem de bruxos, nem de alquimistas. São lugares onde a literatura é amada. Às vezes enfrenta amantes agressivos, do tipo Quiroga ou Dacanal. E, por isso mesmo, é ainda mais discutida. Mais examinada. Se submete a lindos strip-teases todas as noites. E cada dia acorda mais linda.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Revista "Florense" traz um perfil de Faraco


O jornalista Márcio Pinheiro escreveu o perfil de Sergio Faraco para a revista "Florense", de Flores da Cunha (RS).
"Sergio Faraco. A busca pela palavra certa.
O constista gaúcho transpõe para a literatura parte da habilidade com que pratica a sinuca. Seu exercício físico e mental: muita concentração e equilíbrio."
Fotos de Jefferson Botega

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Os lançamentos da L&PM na XIV Bienal do Livro do Rio


Editora apresenta o Decálogo do perfeito contista na Bienal, de hoje até 20 de setembro, no Riocentro - Rio de Janeiro.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

"Decálogo" no Café TVCOM


O Café TVCOM de sábado, dia 29, com Tulio Milman, Tatata Pimentel, J. A. Pinheiro Machado, David Coimbra, Thedy Correa e Tânia Carvalho, apresentou um longo debate sobre o Decálogo do perfeito contista.
Clique aqui para ouvir o programa no post de hoje, no blog de Tânia Carvalho.

domingo, 30 de agosto de 2009

"Decálogo" no Cultura do jornal O Estado de S.Paulo de hoje

Um desfile de credos literários
Coletânea traz reflexões sobre texto de Horacio Quiroga a respeito do conto, gênero que o consagrou
Wilson Alves-Bezerra
O contista uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937) já era, em meados dos anos 20, um escritor maduro e popular - mas estava longe de ser uma unanimidade entre seus pares, principalmente no caso dos jovens. Havia publicado a quase totalidade de seus contos em revistas e jornais de grande circulação da Argentina, onde vivia, e, na época, imberbes vanguardistas locais, como Jorge Luis Borges e Oliverio Girondo, declaravam, nas páginas da revista Martín Fierro, que tinham asco das edições baratas e da popularização da literatura. Anos depois, outro argentino, Adolfo Bioy Casares, dedicaria seu tempo livre a escrever versinhos de escárnio a Quiroga em seus diários íntimos, aos quais hoje o leitor pode ter acesso no livro Descanso de Caminantes. Na década de 90, o cubano Guillermo Cabrera Infante declararia que na infância lera os contos de Quiroga e acreditara neles, mas que não voltaria a lê-los "nem amarrado". Essas são algumas reações salutares à ficção de Horacio Quiroga que dão a medida dos afetos despertados pelo controverso uruguaio.
Pois nos anos de 1927 e 1928, quando via as portas de grandes veículos, como La Nación, se fechando para ele, com a ascensão dos novos talentos, Quiroga começa a publicar uma série de artigos fazendo um balanço de sua carreira, discutindo direitos autorais e - mais importante - refletindo sobre a escrita literária. Estes últimos textos - que tomam como ponto de partida Filosofia da Composição e Hawthorne, do norte-americano Edgar Allan Poe - são impagáveis conselhos, dicas, truques, mandamentos e receitas para o "passatempo das muitas pessoas cujas ocupações sérias não as permitem se aperfeiçoar em uma ocupação mal paga e nem sempre bem vista". Por essa frase já se nota a marca mais forte de tais artigos: o humor.
É justamente a essa série que pertence o texto Decálogo do Perfeito Contista, que dá título à publicação agora lançada pela L&PM. Mas o livro da editora gaúcha, apesar do que indica a capa, não é uma obra de Horacio Quiroga e sim um trabalho feito a partir dela. Partindo da instigante pergunta sobre o que motiva uma escrita literária, e como ela se dá, os organizadores do volume, Sergio Faraco e Vera Moreira, convocaram alguns autores brasileiros para "debaterem" cada um dos mandamentos do célebre Decálogo de Quiroga.
Entretanto, é na sensível passagem da escrita para a leitura que este livro mostra a natureza de sua fatura. O exercício autoirônico do uruguaio naquela série de textos que, nas palavras de Julio Cortázar, traz uma "piscadela ao leitor", é lido de modo literal por Faraco e Moreira, que afirmam com todas as letras que "Quiroga escreveu o Decálogo a sério". E ao fazerem tal afirmação terminam por deitar fora o principal: que o Decálogo del Perfecto Cuentista é uma obra literária construída a partir da ironia, e não um tratado ou um texto teórico sobre o conto.
O caminho escolhido pelos organizadores é justamente o de não considerar o aspecto de criação literária do Decálogo de Quiroga - que se inscreve na longa tradição do relato metaliterário, na qual se incluem textos como Filosofia da Composição de Poe, Pierre Menard, Autor do Quixote, de Borges, e Nome Falso, de Ricardo Piglia.
Com o pressuposto da literalidade, o objetivo do livro de Faraco e Moreira será "convocar renomados escritores brasileiros para uma discussão sobre a vigência ou não desse legado de Quiroga". Ou seja, o Decálogo é reduzido a um conjunto de ideias questionáveis sobre a escrita - e sua sutileza e concisão cedem lugar para a exegese. Com uma discussão nesses termos, o livro perde muito do seu prometido vigor, abrindo espaço para que alguns dos comentadores caiam no protocolar "concordo", "não concordo". O lado positivo é que cada um dos autores vai enunciando, à sua maneira, seu credo literário, declinando seus próprios deuses, declamando seu próprio credo literário. Alguns vão além e, ao responderem, fazem literatura.
A edição traz ainda, na seção O Ofício da Escrita, uma vasta bibliografia comentada. A seleção, cuja marca é o ecletismo, passa por Sade, Gorki, Calvino, Bloom, Moretti, etc., mas - paradoxo dos paradoxos - não cita o fundamental Los Trucs del Perfecto Cuentista y Otros Escritos, coletânea dos textos do próprio Horacio Quiroga sobre literatura, que seria o mote da publicação. Pode-se supor que os organizadores não quiseram citar uma edição em espanhol, dado que as demais referências figuram em português. Teria sido então mais generoso com o leitor incluir outros textos traduzidos de Quiroga sobre o conto, além do Decálogo.
Wilson Alves-Bezerra, tradutor e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos, é autor de Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/Fapesp)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Gaúcha Entrevista com "Decálogo do perfeito contista"

Ruy Ostermann entrevista Sergio Faraco e Vera Moreira, organizadores do livro Decálogo do Perfeito Contista.
Clique aqui para ouvir o programa.

As leis de Quiroga

Matéria publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
Livro debate as regras para um bom conto
CARLOS ANDRÉ MOREIRA
Quando um mestre fala de seu ofício, é comum dizer que ele pontifica. O mestre uruguaio Horácio Quiroga (1878 – 1937) fez mais: escreveu seus próprios 10 mandamentos. Traduzido pelo também mestre do conto Sergio Faraco, o Decálogo do Perfeito Contista, de Quiroga, ganha agora edição nacional comentada por 20 artistas e críticos – transformando o volume em um grande debate sobre o fazer literário.As regras foram publicadas por Quiroga – um dos grandes nomes da prosa latino-americana, – na revista argentina Babel, em 1928 (confira abaixo). Resumiam a poética de um exímio contista, cujo trabalho, em vida, foi muitas vezes comparado ao de Poe, pela maestria na forma e pelo tom fantástico. Escritores, pela própria natureza do ofício, se dedicam a ordenar mundos por escrito. Logo, não são raros os que já publicaram listas do tipo, como as Vinte Regras Para Escrever um Bom Romance Policial, de S.S. Van Dine, publicadas em 1928, contemporâneas do decálogo de Quiroga, ou o mais recente 10 Regras do Bom Texto, de Elmore Leonard (2001).Não é, portanto, a simples publicação do decálogo de Quiroga o principal mérito do volume organizado por Faraco e Vera Moreira. Ambos pediram a 20 escritores, críticos e intelectuais que comentassem uma por uma as 10 regras, concordando, criticando, acrescentando seus próprios pontos de vista – alguns dos comentaristas são eles próprios grandes contistas, como Moacyr Scliar, Nelson de Oliveira, Charles Kiefer ou Cintia Moscovich. Outros são reconhecidos por sua atuação como críticos e pensadores da literatura, como José Castello, Fábio Lucas, Luís Augusto Fischer ou Marcelo Backes – estes dois últimos também ficcionistas. Também estão presentes Luiz Antonio de Assis Brasil, formador de gerações de autores em sua oficina, e Paulo Hecker, um dos grandes intelectuais do Estado, morto em 2007. Completam o time de comentaristas Aldyr Garcia Schlee, Hélio Pólvora, Jacob Klintowitz, Jaime Prado Gouvêa, Miguel Sanches Neto, Roberto Gomes, Silveira de Souza e Sonia Coutinho. Se há algo a lamentar, é o fato de Faraco, um dos maiores contistas do Brasil, ter se limitado ao papel de organizador sem dialogar ele próprio com as regras do escritor uruguaio.
Os 10 Mandamentos de Quiroga
1. Crê num mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchekhov – como na própria divindade.
2. Crê que tua arte é um cume inacessível. Não sonha dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem que tu mesmo o saibas.
3. Resiste quanto possível à imitação, mas imita se o impulso for muito forte. Mais do que qualquer coisa, o desenvolvimento da personalidade é uma longa paciência.
4. Nutre uma fé cega não na tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como amas tua amada, dando-lhe todo o coração.
5. Não começa a escrever sem saber, desde a primeira palavra, aonde vais. Num conto bem feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.
6. Se queres expressar com exatidão esta circunstância – “Desde o rio soprava um vento frio” –, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor das tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes.
7. Não adjetiva sem necessidade, pois serão inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizer o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo.
8. Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depurada de excessos. Considera isto uma verdade absoluta, ainda que não o seja.
9. Não escreve sob o império da emoção. Deixa-a morrer, depois a revive. Se és capaz de revivê-la tal como a viveste, chegaste, na arte, à metade do caminho.
10. Ao escrever, não pensa em teus amigos nem na impressão que tua história causará. Conta como se teu relato não tivesse interesse senão para o pequeno mundo de teus personagens e como se tu fosses um deles, pois somente assim obtém-se a vida num conto.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O quibebe e outro caso

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
Uma coluna de Paulo Sant’Ana despertou especialmente minha atenção. Foi publicada no final de abril e tratava de seus pratos memoráveis, preparados, em regra, pela madrasta. Suas preferências convalidam um postulado gastronômico de Nelson Rodrigues, segundo o qual as pessoas só gostam daquilo que comeram em pequenas.
Em muitos pratos, como o pimentão recheado, Sant’Ana tem minha fervorosa adesão, assim como nos diversos doces que menciona e, olha só, no gosto e no costume de furar a lata de leite condensado para sorvê-lo até a última meleca. Com uma diferença: cometo essa barbaridade até hoje. Haja estômago, mas mal não há de fazer. Ou por outra: o que tinha de fazer, já fez.
Um dos cultos do paladar santaniano, em criança, era o quibebe, e ele declara que ainda o é. Cá estamos, o colunista e eu, numa encruzilhada, e eis que nosso caminho se bifurca. Eu como de tudo e, sendo preciso, até a polenta do cachorro, mas quibebe nem sob tortura.
Gostaria, portanto, de alterar ou complementar a sentença de Nelson Rodrigues: as pessoas só gostam daquilo que comeram em pequenas... desde que não tenham sido forçadas a tanto.
Em nossa casa, no Alegrete, gurias e guris éramos obrigados a fazer certas coisas, e uma delas era comer quibebe.
Outra, tomar sopa de trigo.
Outra ainda, sestear.
E o resultado é que, na idade madura e na mais madura ainda, detesto quibebe e sopa de trigo, e se sesteio estrago a tarde.
Não vem ao caso, mas até hoje me pergunto por que devíamos sestear após o almoço, deitados no piso da sala, e até hoje desconfio de que era o momento em que meu velho e minha velha gostavam de fornicar. Que coisa. Tinham hora marcada! Talvez seja por isso que sou tão pontual. Garanto, no entanto, que ao menos para esse fim nunca olhei para o relógio.
Isso quando era mais ativo, claro.
Ultimamente, limito-me aos anos bissextos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"Decálogo" na Gramado Magazine

Clique aqui para ler a página de Tela Tomazeli, hoje na internet, com a dica do lançamento do Decálogo do perfeito contista.

"Decálogo" no Porto Cultura

Clique aqui para ler a notícia no Canal Literatura do site.

domingo, 16 de agosto de 2009

"Decálogo" no site de Felipe Vieira

Clique aqui para ler a página de hoje de Jornalismo on-line com o lançamento do Decálogo do perfeito contista.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

"Decálogo do perfeito contista", novo lançamento da L&PM com organização de Sergio Faraco e Vera Moreira

LANÇAMENTO – ENSAIOS
Decálogo do perfeito contista
de Horacio Quiroga
Organização de Sergio Faraco e Vera Moreira

Em 1927, quando pela primeira vez foi publicado o “Decálogo do perfeito contista”, na revista Babel, de Buenos Aires, o uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937) já havia talhado, a golpes certeiros e minuciosos, alguns de seus lapidares contos: “O travesseiro de plumas”, de 1907, e “A galinha degolada”, de 1925, entre eles. Era, portanto, quase entrado nos cinquenta anos e respeitado pelos seus pares rio-platenses e outros contemporâneos, como Borges, Juan José Morosoli, Leopoldo Lugones e Juan Carlos Onetti. Como não poderia deixar de ser, o Decálogo é, por um lado, a profissão de fé de um exímio contista, a partilha – generosa, diga-se – de um conhecimento forjado a duras penas, com o objetivo, talvez, de maneirar os excessos literários da juventude, mas, por outro lado, é também um documento literário de uma época e de um modo de se pensar a literatura. No quinto mandamento, lê-se: “Não começa a escrever sem saber, desde a primeira palavra, aonde vais”; no sétimo mandamento, “Não adjetiva sem necessidade, pois serão inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil”.
Visando abarcar ambos aspectos dos mandamentos do perfeito contista idealizados por Quiroga – o aspecto aplicável à literatura do próprio autor, bem como o aspecto historiográfico –, Sergio Faraco e Vera Moreira reuniram alguns escritores e intelectuais brasileiros para debater cada um dos preceitos. O resultado, mais do que um livro de crítica, é uma obra que apresenta o grande gênio narrativo de Horacio Quiroga em uma versão debatida e enriquecida para o século XXI.
COMENTÁRIOS DE: Aldyr Garcia Schlee, Charles Kiefer, Cíntia Moscovich, Deonísio da Silva, Fábio Lucas, Flávio Moreira da Costa, Hélio Pólvora, Jacob Klintowitz, Jaime Prado Gouvêa, José Castello, Luís Augusto Fischer, Luiz Antonio de Assis Brasil, Marcelo Backes, Miguel Sanches Neto, Moacyr Scliar, Nelson de Oliveira, Paulo Hecker Filho, Roberto Gomes, Silveira de Souza e Sonia Coutinho.
HORACIO QUIROGA nasceu em 1878, na cidade de Salto, no Uruguai. Teve uma vida permeada pela tragédia. Depois de enfrentar o suicídio do pai e do padrasto, o tiro acidental que deu no melhor amigo e a morte da primeira mulher, se suicidou em 1937. Publicou poemas, contos e livros infantis. Na Coleção L&PM POCKET estão disponíveis A galinha degolada, Uma estação de amor e História de um louco amor seguido de Passado amor.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O cigarro

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora

Comecei a fumar aos 13 ou 14 anos. Se os guris da rua fumavam e, com as volutas desse charme, eram bem-sucedidos com as gurias, por que eu não poderia também? Marusca era a marca do jurássico pito. A primeira tragada quase me derrubou e acrescente a náusea que me perseguiu no resto do dia. O segundo cigarro, se atordoou, algum prazer rendeu, tanto que fumei um terceiro, um quarto, um quinto, e continuei fumando nos seguintes 54 anos.
Haja pulmão.
Era hora de parar.
Tarde, não?
Mas parei.
E acredite, você que jamais sucumbiu ao vício, parece-me que, não fumando após as refeições, a comida perdeu o gosto – tenho comido em nome da sobrevivência, como quem toma um remédio indispensável. Exagero? Ora, se peco é pela moderação: parece-me que o próprio dia a dia tornou-se insípido.
Antes eu ia ao correio, e na volta, como as vacas rumo ao saleiro, sempre fazia o mesmo caminho: de uma oficina na Tristeza a uma loja de automóveis em Ipanema, para cavaquear sobre carros e, claro, sobre a salvação da pátria e as razões profundas de nossa estadia na parte de cima da terra, e tais prosas mecânicas, políticas e filosóficas se desenvolviam nutridas por cafezinhos e em acolhedora e propícia atmosfera enfumaçada. Em casa, sentava-me à mesa para escrever e, nos momentos de dúvida, recorria a uma tragada esclarecedora.
Agora, este vazio.
O sem-gracismo cotidiano ainda me mata, mas, olha só, com o passar dos dias, das semanas e já dos meses, minha disputa com o cigarro transformou-se em birra, um em cada ponta do cabo-de-guerra. Vai me enervar? Ah, é assim? Essa angústia?
Então toma lá: dou corda e puxo.
Vou ao correio, visito a oficina, a loja, e em todos os lugares que frequento, inclusive meu escritório, tomo saborosos cafezinhos com um único intuito: provocar. Provoco e não fumo. E sigo provocando.
Que força de vontade!
Será que dura?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Oficinas

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
Proliferam oficinas literárias no país – em Porto Alegre já não dá para contar nos dedos –, aplicadas por autores de renome, com formação acadêmica na matéria e muitas obras publicadas, ou por outros que ainda não são autores e cuja credencial é a prévia frequência à oficina de alguém.
Para que servem as oficinas?
Delas não desdenho e tampouco as gabo, não se engastam em meu métier, mas posso supor que venham a ser um bom lugar para algumas pessoas, desde que tenham o hábito da leitura. Exemplos que me ocorrem:
> Para quem ombreia no dia-a-dia o fardo da solidão: há de fazer amigos com interesses afins. É a “amizade útil” definida por Aristóteles, que pode evoluir para afetos menos ocasionais.
> Para contar com o mestre em leituras orientadas pela qualidade e não pela quantidade. Quem lê demais acaba não sendo lido, alerta Schopenhauer, citando Pope.
> Para a discussão da obra de grandes escritores sob quaisquer ângulos, tendo-se em vista que o estilo de um autor, como previne François Mauriac, é único, pessoal, e não se transfere a seus adeptos.
E por aí vai.
E a questão cardeal: a oficina faz o escritor?
A crermos em Kant, não: “Tudo aquilo que Newton expôs em sua obra imortal sobre os princípios da filosofia natural, por mais poderosa cabeça que seja requerida para inventar tais princípios, pode-se perfeitamente aprender. Mas não se pode aprender a fazer poemas com espírito, por mais exaustivas que sejam todas as prescrições da arte poética e por mais excelentes que sejam seus modelos”.
Mas, se ministrada a oficina por alguém capaz de identificar no aluno um talento que não se assemelha ao seu, ela pode ajudá-lo. Subentendida a vocação, o exercício supervisionado talvez faça com que salte etapas que só superaria com mais experiência e maturidade, e isto equivale dizer, até para brincar com tão sério assunto, que o candidato a escritor poderia cumprir os traços essenciais da “revolução permanente”, como os delineou o velho Trotski em novembro de 1929. Se vai dar certo são outros quinhentos. A de Trotski, aparentemente, não deu. A do oficineiro, bem, “o empenho futuro de cada aluno será o fiel da balança”, como escreveu em algum lugar o decano dos mestres, Luiz Antonio de Assis Brasil.
Então é isto: vocação. Mas em que consiste a vocação? Não sei. Talvez ela não seja uma condição que a gente sabe, mas algo cuja presença a gente sente.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Seleta com a mão de Faraco

Texto de FABRÍCIO CARPINEJAR * publicado hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
Foto Dulce Helfer - Reprodução do livro Mário Quintana, 100 anos

O escritor gaúcho Sergio Faraco parece que virou personagem de seus contos de fronteira. Fez o maior contrabando da poesia de língua portuguesa. Em livro de 622 páginas, traz para o Rio Grande do Sul cinco séculos de verso e mais de quatrocentas peças líricas. Num tempo de concurso de miss, em que antologias procuram pinçar o mel do melhor, Faraco decidiu escolher suas leituras pessoais. Num tempo ególatra, em que os críticos costumam dar ênfase aos autores, ele preferiu valorizar cinco grandes temas literários: sonetos, corpo, desaforos, cortesãs e bichos. Reuniu num único volume, Livro dos Poemas, pockets publicados anteriormente pela L&PM. Livro riquíssimo com o propósito de reformar o sebo. Põe lado a lado poetas totalmente desconhecidos como o paulista Batista Cepelos e clássicos como o simbolista Cruz e Sousa. Resgata trajetórias obliteradas do Rio Grande do Sul tais como Bernado Taveira Junior (Rio Grande), Paulo Correa Lopes (Itaqui), Hernani de Carvalho Schmitt (Alegrete). Alguém conhece? E ao mesmo tempo ressuscita títulos antológicos de Mario Quintana, Alceu Wamosy e Eduardo Guimaraens.
A ideia é atraente, organizar a produção lírica a partir de obsessões temáticas, realizando o que Flavio Moreira da Costa vem empreendendo com enorme sucesso no gênero conto. Faraco já tinha sinalizado a vertente com o Livro das Árvores.
É uma cilada enciclopédica: o leitor procura o assunto e encontra vozes esquecidas. Timbres que não frequentam as reuniões tradicionais de família, que têm o hábito de repetir os mesmos convidados.
Talvez seja o efeito Google na literatura: criar um banco versificado de dados por palavra-chave. A coragem está em romper o cânone e as panelas por uma perspectiva leiga e diletante, desobrigada do ranking e das coleções do governo. O que sobressai é o espírito generoso de revisão histórica, capaz de propor novos nomes dos velhos. Aviso aos apressados: não encontrarão as figurinhas tarimbadas de Drummond, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Jorge de Lima, João Cabral, Vinicius de Moraes e Murilo Mendes. Creio que prevaleceu a regra de aproveitar a maior parte dos poemas disponíveis em domínio público. O ponto benfazejo é a possibilidade de ampliar o repertório de leituras. Uma pena se pensarmos que a lacuna implica em perder a exuberância de Boi Morto, de Bandeira, A Mulher e a Casa, de João Cabral, e Jandira, de Murilo Mendes. Não deixaria também de fora os poemas eróticos de A Dança do Fogo, de Armindo Trevisan, e Uma Faca no Peito, de Adélia Prado, que fariam bonito ao homenagear a nudez. Dos sonetos, a seleta carece da inclusão do pernambucano Carlos Pena Filho (Livro Geral), o mais hábil sonetista brasileiro do século 20. Há uma evidente inclinação passadista, que não incomoda, inclusive garante o charme da seleção. No Livro dos Bichos, os cachorros ainda aparecem mais do que os gatos. Superioridade que é uma vaga lembrança na produção contemporânea. Os gatos já são os preferidos dos escritores. Muito mais beldades, divas e musas da solidão. É uma tendência doméstica de companhia na escrita. Assumiram praticamente a ração dos vira-latas. Daí tenha faltado poemas importantes sobre felinos de Haroldo de Campos, Ferreira Gullar e Orides Fontela, para citar três adeptos modernos da arte secreta das sete vidas. Percebe-se a ausência ainda de declarações fundamentais aos cavalos, figuras mitológicas do pampa, facilmente encontrados em portugueses como Antonio Ramos Rosa (Ciclo dos Cavalos) e em parte da poesia regional (Aureliano de Figueiredo Pinto, por exemplo). Obra extremamente criativa na organização. A seção dos desaforos é um achado. Apropriada aos engarrafamentos de Porto Alegre. Vale consultar. Não existe mais desculpa para não refinar o xingamento e passar a ofender com erudição. Que tal sacar um Augusto dos Anjos: “Tem a aparência elipsoidal de um ovo”. O outro motorista ficará ainda mais ofendido por não entender.
* Escritor e jornalista, autor de Canalha! (Bertrand Brasil, 2008), entre outros.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

No tempo do mil-réis

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora

Vasculhando a gaveta das antiqualhas encontro duas plaquetas publicadas em Alegrete há quase um século. A primeira traz a Lei 197, de 31 de dezembro de 1925, que orça a receita e fixa a despesa no município. A segunda é o Ato 187, de 2 de março de 1926, expedido pelo intendente, que dá instruções para a execução da lei do orçamento. Aquele intendente chamava-se Oswaldo Aranha.
Não sei ao certo como esses recuerdos do pago vieram dar na minha gaveta. Imagino que me foram presenteados por algum familiar, pois pertenceram a meu avô. Nas capas, há uma anotação: “Ao sr. Brás Faraco”. Também não sei se chegaram às mãos dele como homenagem ou intimação. Nos termos da dita lei, a Alfaiataria Brás Faraco deveria recolher 250 mil-réis de imposto no exercício entrante.
E assim outros negócios da época: armazéns de gêneros coloniais, escritórios de operações bancárias, casas de pasto, charqueadas, tavernas, mercadinhos e por aí afora. A receita orçamentária também previa a facada em ferreiros, carpinteiros, mecânicos, seleiros, funileiros, tamanqueiros e encadernadores, num rol de ofícios que hoje quase não existem mais. O minucioso rigor do fisco parecia ter altos fins: de uma Receita Ordinária de 746 contos de réis, quase 50 por cento seriam gastos em 1926 nas rubricas Instrução Pública e Melhoramentos Materiais.
Com um pouco de imaginação pode-se ler a Lei 197 como quem vê um filme antigo, e ultrapassadas as cenas em que o mil-réis é o ator principal, tem-se ainda o edificante episódio das Disposições Transitórias, onde o artigo 4º autorizava o intendente a cravar 10 por cento de multa nos impostos do contribuinte em cuja propriedade fosse encontrada uma criança sem escola. Já o ato 187 era tão vigilante que sapecava uma multa no coveiro. Outro encanto das plaquetas é a linguagem ainda não saturada pelos estrangeirismos e tecnicismos da modernidade. Em certos momentos, lembra os relatórios do prefeito de Palmeira dos Índios ao governador de Alagoas, nos anos 1929-30. Aquele prefeito chamava-se Graciliano Ramos.
Bons tempos, os de 1926.
No Alegrete da Livraria Parahiba, da Casa Recurso dos Pobres, do Colégio Alphomega, da Relojoaria Omega e do Cinema Ipiranga, era o tempo das vitrolas ortophonicas, da pasta de dente Oriental, das camisas de zephir, do tônico Iracema, do sabão Sapindo e da famosa pomada Midy para hemorróidas, mas se o problema era tosse, Bromil, e o xarope Roche para as bronchites e os catarrhos mais rebeldes. Nos anos seguintes a vida mudou no mundo inteiro, com a quebra da bolsa de Nova York e a ascensão do nazifascismo, e no Brasil com a crise do café e outra revolução. Em Alegrete mudou menos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Os dragões não envelhecem

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
Atendia por Batata um personagem das ruas de Alegrete e também de suas marquises, sob cuja proteção, enquanto não vinha alguém escorraçá-lo, ele costumava repousar com seus sacos de mistérios. Batata nasceu em 1934, no dia 19 de janeiro. Ele mesmo me deu essa informação quando estive na cidade, nos anos 90, e, vendo-o numa esquina, recostado nos sacos, reclamei de sua aparência: se em meu tempo de menino ele já debulhava pata naquelas velhas ruas – do Hospital de Caridade ao Povo da Lata, da Ponte Seca ao Armazém da Portuguesa –, como podia sua cabeleira conservar o preto original? Batata sorriu e quanta zombaria naqueles olhos de águia. Como se dissesse: “E é a mim que chamam de Batata...”.
Milagre, lembrou-se de mim, ou, mais certo, fingiu que se lembrava, e comentou que eu andava “sumido”. Quis saber se eu ficaria em Alegrete e quando respondi que não, que logo iria embora, fez uma careta: “Pena! Não vai estar aqui no dia do meu aniversário”. Pena mesmo, e aquele dia chegou sem que ninguém abraçasse o Batata, única instituição alegretense que permanecia em pé (sentada, no caso), impondo-se ao onívoro dragão que o poeta Hélio Ricciardi chamou de Já-Teve. Não tinha mudado nada, ou melhor, se não na figura, mudara em outro sentido: carregava mais sacos do que antes. Era uma evidência de prosperidade e tenho dúvidas de que se possa dizer o mesmo da cidade que o desprezava.
Se bem que o Batata, esse Dorian Gray do Ibirapuitã, podia ser a encarnação do Já-Teve: também os dragões não envelhecem. Quem garante que não estivesse a acumular em sua suspeita sacaria toda a riqueza que, ano a ano, a cidade vem perdendo – sua lavoura, seu comércio, seus pecuaríssimos negócios –, e até mesmo sua população?
É uma teoria.
Se confirmada, imagine-se como poderá ser a nossa Londres do Futuro, no fim do século. Um lugarejo deserto e o vento assobiando nas varandas, a carregar folhas secas pelas ruas e fazendo vibrar as últimas vidraças, atrás das quais vinga uma vegetação mirrada e sem nome. De vez em quando um estrondo: uma porta que cai. De vez em quando um rangido: a tesoura de um telhado que vai cair também. Nem uma alma. Nem um cão vadio. Nem um corvo. Nem mesmo um rato. E de repente, no fim da rua, contra um horizonte onde se fundem o céu de chumbo e a terra gris, recorta-se a silhueta do dragão – o velho mendigo com sua eterna juventude e já sem sacos, porque, afinal, ele é o dono de tudo.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Um frasista

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
O gênio militar do grande rei macedônio, sua invencibilidade no campo de batalha e o magnetismo pessoal que empolgava 40 mil soldados, ofuscaram aspectos notáveis, ao menos curiosos, de seu intelecto, como a presença de espírito, ou de sua índole, na intimidade folgazã e ligeiramente escarninha. E era autor de boas frases.
Depois de impor fragorosa derrota ao exército da Pérsia (Isso, 333 a.C), e enquanto atacava Tiro, no Levante, Alexandre recebeu mensagem do soberano persa, com uma proposta de rendição: Dario oferecia 10 mil talentos e entregava todas as terras a oeste do rio Eufrates. Alexandre reuniu o estado-maior para apreciá-la. Seu general, Parmênio, aconselhou: “Eu aceitaria a oferta, se fosse Alexandre”. O rei, que só admitia a rendição incondicional, retrucou com um de seus mais famosos rasgos: “Eu também aceitaria, se fosse Parmênio”.
Tinha apenas 23 anos.
Em 331, em Gaugamelos, tornou a vencer Dario. Em meio à batalha, chegou-lhe um emissário com um recado de Parmênio: precisava de auxílio, o flanco sob seu comando tinha cedido ao ponto de perder a bagagem da tropa. Alexandre mandou o soldado de volta: “Diga a Parmênio que, se vencermos, teremos a bagagem do inimigo, e se perdermos, todos os homens corajosos estarão mortos”.
No ano seguinte, invadia o Irã.
Entrementes, na longínqua Grécia, o general que permanecera no comando militar da Macedônia, Antípatro, submetia os espartanos, que não participavam da liga das cidades gregas. Orgulhoso, enviou um despacho ao rei, relatando o feito. Alexandre leu e comentou para os íntimos: “Parece que, enquanto conquistamos o Oriente, houve uma batalha entre sapos e ratos na Arcádia”.
Esse Antípatro, na capital macedônia, vivia às turras com a rainha-mãe, Olímpia. Ambos escreviam regularmente a Alexandre, com mútuas queixas: o general a acusava de interferir em questões de sua alçada e ela lhe censurava a arrogância. Em Susa, já de retorno de sua aventura na Índia, Alexandre recebeu novas cartas de ambos, e ao ler a da mãe, reclamou: “Ela exige um caro aluguel pelos nove meses”.
Morreu pouco depois na Babilônia, aos 32 anos e oito meses, em 28 de junho de 323 a.C., de uma súbita febre. Na Macedônia, correu o boato de que fora envenenado por um pajem, a mando de Cassandro, filho de Antípatro. A receita teria sido aviada por Aristóteles, para vingar o sobrinho Calístenes, que seu ex-pupilo mandara matar. Era a versão de Olímpia, figurinha mais venenosa do que qualquer veneno.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Uma aula de sinuca com Faraco na TVCOM

O programa Estilo Próprio de ontem apresentou reprise da aula de sinuca que Fernanda Zaffari teve com o escritor Sergio Faraco (veja a descrição dela abaixo). Exibido em outubro do ano passado, o programa pode ser assistido novamente ainda hoje, às 17:30hs; amanhã (quarta-feira), às 15:30hs; na quinta-feira, às 10:15hs e no sábado, às 16:30hs, na TVCOM.
ESTILO PRÓPRIO NA TVCOM (27/10)
Um dias desses, no programa Estilo Próprio, eu andei jogando sinuca e não fui muito bem.
Aí, eu peguei o livro
Snooker: Tudo sobre a Sinuca, de Sérgio Faraco, que além de ser um grande escritor, sabe jogar sinuca como ninguém.
Então, fui aprender a jogar com ele.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Livro dos livros

Nota publicada hoje na "Contracapa" do Segundo Caderno, de Zero Hora
“Por que açoitas essa pobre rameira? Vira contra ti próprio essa chibata. Estás ardendo de desejos de com ela realizares o ato por que a castigas.”
Esse trecho de Rei Lear, de Shakespeare, integra a antologia de poemas selecionados pelo escritor Sergio Faraco para o Livro dos Poemas, lançamento da L&PM pela Série Ouro que está chegando às livrarias.O volume reúne os cinco títulos organizados anteriormente pelo autor para a série pocket da editora: Livro das Cortesãs (cuja capa era a vovozinha pelada aí embaixo), Livro dos Sonetos, Livro do Corpo, Livro dos Desaforos e Livro dos Bichos.



terça-feira, 2 de junho de 2009

O "Livro dos poemas" da série Ouro traz cinco séculos de poesia

Está no site da L&PM Editores

O Livro dos poemas, da série Ouro da L&PM Editores, traz cerca de cinco séculos de poesia, em mais de quatrocentos textos representantes da lírica em língua portuguesa. Organizada pelo escritor Sergio Faraco, que realizou uma seleção especial dos mais belos versos escritos por poetas brasileiros e portugueses, esta coletânea rara e primorosa reúne cinco livros de poemas já publicados na Coleção L&PM Pocket: Livro dos sonetos, Livro do corpo, Livro dos desaforos, Livro das cortesãs e Livros dos bichos.
Na primeira parte da antologia, autores de diversas gerações dão voz a sonetos de sensibilidade incomum. O que segue são escritos que, agrupados em coletâneas temáticas, trazem as mais importantes composições poéticas sobre o fascínio pelo corpo feminino, uma compilação de poesia satírica que mostra a língua afiada dos escritores, um olhar exacerbado sobre as cortesãs que fizeram a loucura dos homens e textos que mostram o amor incondicional pelos bichos.
A grande variedade de vozes da poesia está presente em Camões, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac, Fernando Pessoa, Basílio da Gama, Raimundo Correia, Bocage, Augusto dos Anjos, Florbela Espanca, Mario Quintana, Machado de Assis – mais conhecido por sua prosa –, referenciado com o poema "A Carolina", em homenagem a sua mulher, entre muitos outros.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Azarados e sortudos

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora

Deu no jornal que o japonês Tsutomu Yamagushi, em 1945, foi vítima de um grande azar e, ao mesmo tempo, teve uma sorte não menor. Em 6 de agosto, ele estava em Hiroshima, a negócios, quando os americanos lançaram a bomba, matando 140 mil pessoas. Yamagushi se encontrava a menos de três quilômetros do epicentro da explosão e, além de não morrer, no dia seguinte era tão boa sua saúde que pegou o trem de regresso a sua cidade, Nagasaki. Ora, em Nagasaki os americanos logo lançaram outra bomba, matando 70 mil pessoas, e não é que Yamagushi novamente não morreu? E continua vivo, aos 93 anos. Está meio surdo, o que não quer dizer nada. Eu também estou, sem bombas.
O japonês tem uma parceira nessa monumental simultaneidade de acasos antitéticos.
Em 1912, a inglesa Violet Jessop embarcou no Titanic como camareira, e na madrugada de 14 para 15 de abril, quando o vapor foi a pique no Atlântico Norte, ela teve o privilégio de salvar-se num dos escassos salva-vidas. Morreram mais de 1,5 mil pessoas.
No curso da I Guerra, ela trabalhava como enfermeira no Britannic, navio-hospital que não era outro senão o Gigantic, irmão gêmeo do Titanic, requisitado à White Star Line pelo almirantado inglês e com apenas 351 dias de mar. Em 21 de novembro de 1916, na canal entre a costa da Grécia e a ilha de Kea, o Britannic abalroou uma mina marítima plantada na véspera por um submarino U-73, e começou a naufragar pela proa. Violet escapou num bote. O navio, no entanto, continuava em movimento, uma tentativa do capitão de alcançar águas rasas, e seu bote e outros foram atraídos pelo repuxo das grandes hélices, em ação já na flor d’água. Última a saltar, a enfermeira ainda padeceu longa e perigosa submersão antes de ser resgatada por uma lancha. O Britannic afundou em 55 minutos. Morreram 28 pessoas, todas atingidas pelas hélices.
Não sou supersticioso, ao menos não muito, mas – e sem querer brincar com tragédias –desconfio de que os vizinhos do japonês, naqueles anos, não se sentiam garantidos: podiam ter o mesmo azar e não a mesma sorte. Na inglesa, uma linda mulher, eu mesmo gostaria de encostar, desde que no seco. Com ela eu não entraria nem na banheira.
***
P.S.: As memórias de Violet Jessop, Titanic Survivor, foram publicadas no Brasil com o título Sobrevivente no Titanic (Fortaleza: Brasil Tropical, 1998. 300p.), com introdução, edição e notas de John Maxtone-Graham. Que a editora me desculpe, mas a tradução não poderia ser pior.

sábado, 30 de maio de 2009

Conto de Faraco em coletânea dos anos de chumbo

Nem Sempre foi Assim - Contos dos Anos de Chumbo.
(Florianópolis: Garapuvu, 2007. 88 páginas).
Com a participação dos escritores. Amilcar Neves, Cristovam Buarque, Emanuel Medeiros Vieira, Francisco José Pereira, Mario Prata, Olsen Jr., Sérgio da Costa Ramos, Sergio Faraco, Silveira de Souza e Urda Alice Klueger. O livro reúne, em forma de ficção literária, textos sobre os horrores cometidos nos longos anos de ditadura militar instalada em 1º de abril de 1964 e só interrompida em 1985.


Matéria publicada hoje no Diário Catarinense sobre o livro:
Nem sempre foi assim
Coletânea organizada por Francisco Pereira traz para a ficção as experiências de 10 escritores no pós-1964
Nos tempos daquele slogan: “Brasil: ame-o ou deixe-o”, muitos foram os brasileiros, intelectuais, sobretudo, que preferiam deixá-lo, porque não era mais um Brasil amável. Foram tempos de uma ciranda diversa. Décadas de 1960 e inícios de 1970. O arbítrio do AI-5. (...)
Um dos refugiados no exterior, por muitos anos, foi Francisco José Pereira, que organizou estes Contos dos Anos de Chumbo, sob o apropriado título Nem Sempre Foi Assim. (...) Testemunhas do seu tempo, de opressões e horrores, resgatam para leitores mais jovens algumas das arbitrariedades da ditadura militar, traços para “estudo e aprofundamento dos fatos que marcaram aquele instante crucial da História brasileira”, nas palavras do prefaciador Roberto Freire. (...)
Boleros de Júlia Bio, por Sérgio Faraco, constitui relato pleno de nostalgia, melancólico e lento como o bolero. O narrador, distante mas não esquecido de Helena, relembra o tempo do hotel em Caxias, o projeto de um chalezinho em Belém Novo, com petúnias... porém, de repente, desaba o presente que tudo sufoca: a polícia irrompe na clandestinidade, fazendo com que se realizem as palavras da canção de Júlia Bioy. Tanto o ótimo diálogo quanto o fluxo interior prendem o leitor até o final. (...)
Mesmo durante os “anos de chumbo”, artistas, músicos, escritores brasileiros não diminuíram sua voz, bastando lembrar o Cinema Novo, o Teatro de Arena, os Centros Populares de Cultura, um Chico Buarque, um Erico Verissimo. Todo desafio é instigante. Em Santa Catarina, lembrem-se de Holdemar Menezes (A Maçã Triangular), Salim Miguel (Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia ou A Voz Submersa), Roberto Gomes (Alegres Memórias de um Cadáver) Edla van Steen (Memórias do Medo), Emanuel Medeiros Vieira (A Revolução dos Ricos), escrevendo ainda no calor da hora. Mesmo 40 anos após a “gloriosa”, as marcas não cicatrizaram, e este volume Nem Sempre Foi Assim pode bem lembrar às gerações mais jovens que “nem sempre foi assim” como os tempos de hoje e “nem sempre foi assim” como nos Anos de Chumbo das décadas de 1960-1970.
POR LAURO JUNKES Presidente da Academia Catarinense de Letras.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Faraco na Tribuna de Petrópolis

O caderno "Lazer" do jornal Tribuna de Petrópolis de hoje traz crítica de Fernando Py sobre dois lançamentos de Faraco pela L&PM em 2008: O pão e a esfinge seguido de Quintana e eu e Noite de matar um homem.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Faraco na antologia "Os melhores contos brasileiros de todos os tempos"

Em breve chega às livrarias uma nova antologia de Flávio Moreira da Costa: Os melhores contos brasileiros de todos os tempos. O livro tem diversas seções e em "Contos contemporâneos" está Sergio Faraco com "Guerras greco-pérsicas".
Faraco, que nasceu em 1940, é o autor mais jovem da lista dos contemporâneos e aparece ao lado de José Cândido de Carvalho (1914), Murilo Rubião (1916), Clarice Lispector (1920), Lygia Fagundes Telles (1923), Dalton Trevisan (1925), Autran Dourado (1926), Guimarães Rosa (1908), Rubem Fonseca (1925), Victor Giudice (1934) e Moacyr Scliar (1937).
Na nota do antologista Flávio Moreira da Costa a respeito de Sergio Faraco, neste novo livro, ele registra que outros contos de Faraco já foram incluídos em antologias que organizou, e anuncia mais um: "Dançar tango em Porto Alegre", que estará em Os melhores contos de amor e desamor, com lançamento previsto para o final deste ano.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sem batismo: o limbo

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
Em 2007, ao agradecer à RBS e ao Banrisul o Prêmio Fato Literário que me foi concedido, mencionei que, se minha ficção viajara para longe, ao ponto de ser lida no alfabeto cirílico (mais longe do que merecia), a passagem de ida eu creditava ao prestígio da L&PM, aos meus editores Ivan Pinheiro Machado e Paulo de Almeida Lima, e aos seus funcionários. Não era o caso de arrolar todas as minhas dívidas, mas, se o fosse, teria dito também que aprendi a escrever no Caderno de Sábado do Correio do Povo, editado por P. F. Gastal, e no Suplemento Literário Minas Gerais, fundado por Murilo Rubião: compartilhar o texto impresso com pessoas desconhecidas refinava meu senso crítico.
Esta lembrança não é um reparo tardio. Ao eleger o tema da coluna, eu refletia sobre os jovens escritores de hoje aqui no Sul: no futuro, dificilmente eles poderão citar, como citei, órgãos da imprensa que os ajudaram a crescer.
Em minhas palestras, se tenho como ouvintes pessoas que almejam dedicar-se à literatura, especialmente na ficção, sempre recomendo que publiquem em jornais e deixem o livro para mais tarde, quando puderem errar menos. É um conselho inoperante: se já não há cadernos literários em nossos jornais, e nos que se assemelham a ficção e poesia são descartadas, onde os jovens vão publicar? Segundo me disseram, é a linha que segue a grande imprensa em todo o mundo. Que seja. No entanto, ainda pergunto: onde os jovens vão publicar?
Tanto quanto sei, recorrem a blogs que, por regra, raramente são lidos, e frequentam oficinas, onde trocam impressões com os colegas e o mestre, mas para apurar a faculdade de ler um texto como se a outrem pertencesse, nada, nem blog nem oficina, nada substitui o jornal e seus proveitos. E a gurizada que tem talento, para evadir-se do limbo, publica livro antes do tempo. É a crisma antes do batismo.
Mas, olha só, eis uma notícia boa.
Para irmanar-se ao Rascunho, de Curitiba, onde há espaço para todos os gêneros literários, renova-se em Belo Horizonte o velho Suplemento Literário Minas Gerais, sob os auspícios da Secretaria Estadual de Cultura, após um percurso em que capengou mais do que andou. Quem agora o dirige é um dos remanescentes de sua fundação, o escritor Jaime Prado Gouvêa (leia o notável Fichas de Vitrola), e seu nome é uma garantia de que o suplemento há de reviver as gloriosas estações da era Rubião.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O bote do homem-cobra

Coluna de Sergio Faraco, publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora

Aquele Plínio Pinto, balconista da farmácia, era um caso radical de dupla personalidade.
Funcionário zeloso e entendido em medicamentos, cujas bulas conhecia tanto quanto o farmacêutico, também era sacristão e noivo perpétuo de Lucimery, servente do Colégio Divino Coração. Receitava para os necessitados, aplicava injeções, entregava remédio em casa e, na igreja, puxava o terço das vésperas pela saúde dos enfermos. Em Alegrete, gozava de maior estima do que o padre e o farmacêutico.
À noite, transformava-se, e o povo ordeiro fugia dele. Vestia uma capa negra, blusa vermelha com uma naja no peito, culote militar verde-oliva e botas de camurça baia, e se identificava como o Homem-Cobra. Percorria as alamedas da praça à cata de elementos suspeitos e fazia o périplo dos bordéis, onde era recebido com júbilo pelos boêmios e incitado a narrar suas proezas, que todos fingiam ouvir com espanto e admiração. Não era raro comparecer à farmácia, na manhã seguinte, com hematomas no rosto, sinal de que provocara alguém que não estava com ânimo teatral.
Até então, suas façanhas tinham sido fruto da imaginação, e foi numa noite engalanada do Clube Cassino que fez a tentativa de torná-las reais. Festejava-se, no salão do segundo piso, o aniversário do filho do dr. Paulino. O aniversariante apagou as velinhas e foi levado embora, tinha apenas cinco anos. A comemoração era um pretexto: o doutor, candidato a prefeito, buscava adesões à sua campanha.
Do programa da noite constava a entrega de medalhas a personalidades merecedoras do reconhecimento público: o médico, o provedor do Hospital de Caridade, um ex-prefeito e correligionário, o antigo jardineiro da praça e, por certo, o benemérito Plínio Pinto. Mas o balconista da farmácia, surpreendendo a todos, não estava presente.
Depois do jantar, no momento em que alguém fazia tilintar uma garrafa – dr. Paulino, num improviso, ia saudar os convivas e dar início às homenagens –, Lucimery entrou correndo no salão, a gritar que seu noivo estava agachado no muro do terraço, em vias de dar um bote no vazio. Sobreveio um átimo de assombro e logo o burburinho, a correria. E o Homem-Cobra, empolgado com o frisson que causava, não ouviu os apelos da amada e lançou-se do terraço para a glória, em pé.
Quebrou as duas pernas e o calcanhar.
Dr. Paulino perdeu a eleição por 17 votos. Em entrevista à ZYE-9, portou-se à altura, enaltecendo o jogo democrático e cumprimentando o prefeito eleito, mas à noite, no clube, tomou um pileque. Esmurrava a mesa, atribuindo a derrota ao fiasco do Homem-Cobra, e clamava à desconsolada claque: “Foi cobra mandada! Foi cobra mandada!” .

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O mentiroso

A partir de hoje, a coluna de Sergio Faraco passa a ser publicada nas segundas-feiras, quinzenalmente, no Segundo Caderno, de Zero Hora.
Em Alegrete havia um estancieiro cujo nome não direi, viúvo e sem filhos, dono de extensas sesmarias ricamente povoadas. Após o almoço, costumava sentar-se a uma mesa da copa no Clube Cassino para fumar um charuto e conversar. Mas ninguém – que pena –, ninguém gostava de conversar com ele, porque era um grande mentiroso.
Eu o conheci em meus 11 ou 12 anos.Ao sair do colégio, eu sempre ia ao clube jogar sinuca com os garçons – aproveitava a sesta do diretor de mês, que não me permitia jogar por ser menor. Um dia o estancieiro conversou comigo. Notando meu interesse, elegeu-me como seu primaz ouvinte.
Via-me guardar o taco e gritava:
– Vem cá, gringuinho.
E dê-lhe a encarreirar suas mentiras.
Uma delas era a da viagem a Nova York, num Constellation da Panair. Ele bebia um cálice de conhaque quando o avião entrou num vácuo e, segundo seus cálculos, perdeu légua e pico no altímetro. O cálice lhe escapou da mão e grudou de tal modo no teto que, ao fim do mergulho, parecia uma ventosa, e ele conseguiu recuperar o aperitivo sem que uma só gota fosse derramada.
Também contava que, num dia ventoso, ao camperear em seus domínios, ouviu Linda Batista a cantar um único e repetido verso: “Toda quimera se esfuma”. Outra lufada e o mesmo lamento: “Toda quimera se esfuma”. Vinha a voz de um capãozinho na quebrada entre duas coxilhas. Foi até lá, e que espantosa descoberta! Era um caco de disco que pendia de um espinilho. Ao roçar num espinho, produzia aquele queixume agoniado.
Estes e outros causos me encantavam, e deixar de ouvi-los foi talvez minha maior tristeza quando, ao completar 13 anos, meu pai me internou no Colégio Rosário em Porto Alegre. Como voltava a Alegrete só nas férias, perdi o contato com o mentiroso de minha predileção.
Suponho que, riscado o meu nome de seu caderno e sem vivalma para crer em suas inocentes quimeras, elas se esfumaram “como a brancura da espuma que se desmancha na areia”. Uma noite o vi sozinho num banco da praça, perto do mictório público. Aproximei-me para abraçá-lo e levei um susto: estava chorando. Antes que me visse, ai de mim, fugi, porque me deu vontade de chorar também.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O pimentão olímpico

Coluna de Sergio Faraco, publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
Dom Carlos – assim o chamava, embora ele não gostasse – era um homem circunspeto, de escassos sorrisos, ligeiramente desconfiado, ou antes ligeiramente cético, um efeito, quem sabe, da atribulada trajetória de sua existência. Ele se houve com um sem-número de percalços até que seus negócios afinal prosperassem, facultando-lhe a constituição de uma família saudável, laboriosa, e uma vida tão pacata que, em seus últimos anos, chegava a ser monástica. Morreu no ano passado, por certo compenetrado de que fez tudo o que tinha de fazer. Não é assim que morre a maioria das pessoas.
Esse Carlos, na verdade, chamava-se Karoly Cvitko, e nasceu em Csantavér, pequeno burgo ao sul da Hungria. Pouco depois da ignomínia que foi a invasão da Hungria por tropas soviéticas, em 1956, ele deixou o país com a mulher Erzabet e uma filha pequena, e veio morar no Brasil. Trabalhou como operário numa siderúrgica, e em seguida, por falar alemão e inglês, foi contratado como recepcionista do Plaza Hotel, em Porto Alegre. Trabalhou na mesma função em hotéis do Rio de Janeiro e de São Paulo. Por essas injunções do acaso, no segundo lustro dos anos 60 estabeleceu-se em São Sebastião do Caí. E ali, no km 9 da RS 122, Karoly e Erzabet fundaram um restaurante especializado em cozinha húngara, A Canga, que em 2009 completa 42 anos, administrado pelo filho Carlos José e pelo neto Carlos Felipe.
Mudou a administração, não a família e muito menos a receita do pimentão recheado com carne moída e arroz, ao molho de tomate com páprica doce, que continua tão irresistível como na primeira vez que o provei, em 1972.
Conheci o restaurante húngaro através do advogado Cláudio Battaglia e sua esposa Marlene, de cujo casamento fui padrinho, num dia que, por sinal, começou mal: levei uma carraspana de Dom Carlos. Minha mulher e eu estávamos com nossas filhas, de três e dois anos. Ao contemplar, inquieto, pimentões flutuantes em molho sanguíneo, perguntei ao proprietário se aquilo era apropriado para crianças. Dom Carlos enfureceu-se: “O que o senhor acha que as crianças comem na Hungria?”
As meninas comeram até fartar, e hoje, tantos anos depois, elas e o irmão menor continuam frequentando a casa e saboreando o mesmo prato. Diz Nelson Rodrigues que a gente só gosta do que comeu em pequeno. Pode ser, mas tenho outra teoria sobre o pimentão de São Sebastião do Caí: é o mesmo que, antes da sobremesa, Hebe e Ganimedes serviam aos deuses olímpicos. É por isso que se come e, à noite, sonha-se com ele.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

L&PM lançará, na Série Ouro, antologia de poemas selecionados por Faraco

Camões, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac, Fernando Pessoa, Basílio da Gama, Raimundo Correa, Bocage, Augusto dos Anjos, Florbela Espanca, Mario Quintana, Machado de Assis e muitos outros.
O escritor Sergio Faraco debruçou-se sobre os mais belos versos escritos por poetas brasileiros e portugueses e realizou uma seleção especial que agora é publicada em um único volume da Série Ouro: o Livro dos poemas. Esta coletânea rara e primorosa reúne cinco publicações anteriores pela Coleção L&PM Pocket e já esgotadas: Livro dos sonetos, Livro do corpo, Livro dos desaforos, Livro das cortesãs e Livro dos bichos. Todos foram sucesso; só o Livro do sonetos vendeu mais de 20.000 exemplares.
Na primeira parte do Livro dos poemas, autores de diversas gerações dão voz a sonetos de sensibilidade incomum. O que se segue são escritos que, agrupados em coletâneas temáticas, trazem as mais importantes composições poéticas sobre o fascínio pelo corpo feminino; uma compilação de poesia satírica que mostra a língua afiada dos escritores; um olhar exacerbado sobre as cortesãs que fizeram a loucura dos homens e textos que mostram o amor incondicional pelos bichos. Reunidos em um só volume, estes poemas são uma rica fonte de inspiração.

terça-feira, 31 de março de 2009

Fernanda Zaffari mostra bistrô favorito de Faraco

O programa Estilo Próprio de ontem foi ao Bistrô do Pátio, na Tristeza, Zona Sul da capital, onde Sergio Faraco é cliente assíduo e pede quase sempre o mesmo prato: risotto ai gamberi. "Na porção bimbo, que é a reduzida", contou Angélica Faraco, a proprietária e filha do escritor, que teve sua formação gastronômica na Itália e inaugurou a deliciosa casa em Porto Alegre depois de comandar um restaurante em Milão.
As reprises do programa serão exibidas durante esta semana na TV Com: hoje, às 17:30hs, amanhã, às 15:30hs; quinta-feira, às 10:15hs e sábado, às 16:30hs.
Bistrô do Pátio
Endereço: Avenida Wenceslau Escobar 2933, Tristeza
Fone: (51) 3264.0190

quinta-feira, 26 de março de 2009

A cor da vaca

Leia crônica de Sergio Faraco, A cor da vaca, na revista Globo rural deste mês:
Quando estive na Academia Brasileira de Letras, em 1999, para receber um prêmio, fui apresentado a uma pessoa que sempre admirei, o economista Celso Furtado. Ele me disse que lera o livro premiado, Dançar tango em Porto Alegre, e até votara nele, mas que para fruir a primeira parte, a dos contos fronteiriços, era preciso ter à mão um compêndio de termos regionais. Ocorrendo-me no ato que para ler Jorge Amado, Guimarães Rosa, José Lins do Rego ou Mário Palmério, ninguém reclamava dicionário, deixei escapar uma destemperada réplica: “Para ler as outras partes o Aurelião lhe basta”. Chocado, ele pediu licença e se afastou.
Que horror.
Até hoje me arrependo dessa cabeçada e mais ainda por me compenetrar de que o desconhecimento do vocabulário campeiro, de nossos costumes e outras tipicidades, afeta não só os brasileiros em geral como os próprios rio-grandenses citadinos, que parecem mais à vontade com a linguagem e as idiossincrasias da classe média do Rio de Janeiro, conforme as reproduzem as novelas na televisão.
Atenção: nada contra o Brasil, que é um país amigo.
Esta desarmonia entre gaúchos urbanos e o Rio Grande profundo costuma me lembrar dois antigos episódios que não provam nada e nem ao menos são sérios, mas que posso fazer se é regra me acudirem?
Nos primeiros anos 50 eu era aluno interno em Porto Alegre e no final do ano convidei um colega para passar as férias na fazenda de meu avô materno, em Itaqui. Ele veio de ônibus até um lugar chamado Quatro Bocas, não longe da Vila do Bororé, onde o peão, com a jardineira, foi esperá-lo no costado da cerca. E nada de voltar. Já entardecia quando a jardineira finalmente apareceu, trazendo o visitante e a explicação: andavam à procura da mala. O ônibus passara antes da hora. Não vendo ninguém, o menino pulara o alambrado e se adiantara campo adentro. A mala era pesada e então a abandonara, marcando o lugar: ao lado de uma vaca. Bem, a vaca tinha caminhado, a mala não, e só foram encontrá-la no dia seguinte.
Era só um menino, claro.
Quinze anos depois, eu era Diretor de Secretaria de um órgão judiciário em Uruguaiana, e entreguei ao Oficial de Justiça um mandado para que procedesse a uma penhora em estabelecimento rural do município. Ele o cumpriu, certificando ter penhorado os seguintes bens: uma vaca marrom, deitada, e duas terneiras da mesma cor, uma ao seu redor e outra próxima. Não ficou esclarecido se a segunda e colorida terneira era gêmea, adotada ou só estava de visita.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Uma lembrança para sempre

Coluna de Sergio Faraco publicada hoje no Segundo Caderno, de Zero Hora
No início de dezembro estive na UniRitter para falar a um grupo de 66 idosos em processo de alfabetização, coordenado pela professora Denise Costa Ceroni e monitorado pela professora Elzira Tischer de Lima. O grupo, muito apropriadamente, chama-se "Revivendo a vida". Essa palestra, que concluía o ano letivo, foi a mais longa que jamais ministrei, três horas de duração, e a mais peculiar: ao invés de afetar os ouvintes com minhas palavras, fui por eles afetado.Como se deu essa inversão?
Diria que me emocionei com o anseio que eles têm de aprender, com as perguntas que formulavam, sempre adequadas, concernentes, de coração aberto, não infectado pelas deturpações do intelectualismo, e ainda porque nunca, em palestra alguma, perguntaram-me tanto, e nunca minhas respostas foram ouvidas com tão respeitoso silêncio.
Mas não foi só por isso.
Foi também porque eu falava para pessoas que... olha, preferiria eu ouvi-las, foi por me compenetrar da fibra com que tentavam recobrar as estações perdidas e lograr uma digna inserção social num país que parece desprezar os velhos, e ainda porque essa disposição se me afigurou uma barricada na resistência ao nazifascismo do que é novo — esse novo vicioso que, com seu poder imperial, não se contenta com a imposição natural e necessária de seus atributos, e quer suprimir, como num pogrom, tudo o que o antecedeu. Como se o novo não fosse um produto do que envelheceu, não fosse algo contingente, derivado de outra contingência, como se suas bem-vindas novidades descessem do céu como um deus ex machina para fazer tábula rasa do que antes foi vivido e construído.
Mas ainda não foi só por isso.
Foi pelo meu orgulho de vê-las aptas para avocar papéis sociais que a alfabetização lhes faculta, pelo orgulho delas de poder tomar conhecimento de tudo o que antes lhes era interdito —inclusive os livros e quem sabe até a literatura —, pela capacidade que agora têm de forjar suas próprias opiniões.
E já caía a tarde, na hora do ângelus, quando duas vozes e um violão consumaram nosso encontro.
Dá para esquecer?